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22/10/2009 - 15:52

Ingresso, ambiente e jogo: uma trilogia no Santiago Bernabeu

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O ingresso

A primeira história deste espetacular Real Madrid 2 x 3 Milan é a do ingresso. Um amigo em Madri tem uma amiga que tem uma terceira amiga. A amiga número 3 é proprietária de 3 preciosidades. Três cadeiras de abono, como aqui na Espanha chamam, para a temporada, que vêm sido passadas de pai para filho ou, no caso delas, de mãe para filha. Afinal os três ingressos estão no nome da filha, da mãe e da avó.

As três entradas não poderiam ser mais nobres. Ficam na oitava fileira a partir do escanteio do lado direito onde Dida tomou um frango no primeiro tempo e Casillas tomou outros dois no segundo. A chamada Lateral Este Grada Baja.

Você fica no nível do gramado e quando Ronaldinho ou Granero vinham bater o escanteio, dava para interagir com eles. Ronaldinho, por exemplo, irônico, mandava o seu costumeiro Hang Loose com o sorriso trade mark para as vaias e gritos de ‘almôndega’, ‘baladeiro’ e ‘bêbado’ que recebia.

Para ter estes ingressos, o trio (filha, mãe e avó), tem a preferência de todos os anos comprar a mesma cadeira, que pode ser passada de pai para filho. Compram sempre, claro, até porque o preço não é absurdo (a temporada custa cerca de 800 euros por cadeira, com direito a ver todos os jogos em casa, de Liga, Copa do Rei, Champions e o que mais rolar). O duro não é o preço, mas sim a fila. Para ter o direito de comprar ingressos para a temporada como estes, a fila de espera pode levar de 10 a 20 anos.

E como um deles foi parar na minha mão? Bem, a avó já não está mais tão disposta a ver jogos. E desde que Florentino Perez assumiu, com a zaga ano após ano péssima, o médico decidiu por vetar alguns jogos. A mãe estava fora da cidade por algum motivo. E a filha resolveu não ir. Primeiro por não ter a companhia da família, segundo porque estes ingressos valem dinheiro. E então ela entrega as carteirinhas para a amiga número 2 (sim, tem que confiar para entregar estas preciosidades na mão de alguém) e esta vendeu para mim e amigo André por 60 euros cada.

É o cambista familiar. Aquele que entrega a carteirinha na sua mão, entra com você no estádio, pega de volta e assiste ao jogo. Muitos fazem disso uma renda extra. E, até por isso, não são poucos os ‘de fora’ em espaço tão nobre.

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O ambiente

Aí você entra e, depois de passar a catraca, não sobe escada nenhuma. Apenas desce. Se a cidade de Madrid (vou usar com D) está a 655 metros acima do nível do mar, o gramado do Santiago Bernabeu está a uns 650, por aí.

Entre a primeira fila de torcedores e o gramado, apenas fotógrafos ajoelhados, placas de publicidade e agentes de segurança de frente para a torcida.

A torcida lota o estádio. Atrás do gol de Dida no primeiro tempo, no último anel, os ‘ultras’ italianos, ou a torcida organizada do Milan. Atrás do gol oposto, mas no primeiro anel, os ultras do Madrid, metade de roxo, metade de branco. Só eles gritam para valer, o resto da torcida fica quieta , o que dá a impressão que a torcida adversária grita mais alto.

“O torcedor do Madrid é assim. Gosta de ver o jogo. Ficar gritando é mais para os ‘ultras’, que pouco assistem à partida”, me explicou meu cicerone. Gostei da explicação (me identifico, aliás.. assisto a jogos quieto). Além do espaço reservado aos ultras adversários, muitos torcedores do Milan espalhados pelo resto das tribunas. Mas muitos mesmo, infiltrados, comemorando gols normalmente e gritando bastante. Nenhum mal estar e nenhuma confusão. Três cadeiras acima de mim um grupo de 6 italianos chegou a incomodar de tanto que gritavam os gols. Não seria exagero se rolasse uma briga ou uma discussão. Mas não rolou.

Outra particularidade: maconha. Sim, o cigarrinho do capeta não dá trégua. No lugar (nobre), em que eu estava, foi o jogo inteiro o cheiro e o fumacê do ‘porro’, como se diz por aqui. Um torcedor chegou a fazer o trocadilho: ‘passaram para o Kaká este baseado?’ Maldade…

O frio estava de lascar. Oito graus mas o vento e a chuva fria davam sensação de ainda mais frio. Aí entra a turma do amendoim. Com o time jogando mal, chuva e frio, reclamavam até da cobertura do estádio, que não existe em todos os lugares.

– Florentino %$#@%, cadê o teto?, reclamava um senhor.

Tanto frio que quando o Milan virou, alguns torcedores deixaram o campo, incluindo um ao meu lado. No intervalo, todos voltam para a parte coberta, para um xixi, um bocadillo e, principalmente, para ver os melhores momentos do primeiro tempo e os gols dos outros jogos da Champions na TV.

Sobre os jogadores: Kaká ainda é uma incógnita. Se 80% do estádio estava lá para vê-lo, os mesmos 80% saíram chateados. Alguns davam força, sabem do potencial e do tempo que leva para a adaptação. Outros, como no Brasil, são impacientes e pediam para que Kaká tirasse a camisa do Milan que estava por baixo.

O brasileiro que mais vai do céu ao inferno é Marcelo. Os torcedores mais ‘boleiros’ acham que é muito para ele marcar e ainda ter que apoiar, já que do outro lado Sergio Ramos faz só uma das coisas. Os torcedores mais folclóricos e fanfarrões não suportam o brasileiro. Não é incomum ouvir vaias a ele. De qualquer forma, várias jogadas passam pelos pés do lateral, inclusive oportunidades de gol. Como o gol final de Pato saiu nas costas dele, mais uma na conta do Marcelo.

Saíram todos com a sensação de Ronaldo-dependência. Cristiano, que estava no estádio, fez falta. Zidane, que estava no estádio, também. E Raúl Gonzales BLANCO, que fez o primeiro gol e deu o passe do segundo, é um ídolo sem igual. Sua raça contagia os torcedores. Seus gritos e carrinhos merecem aplausos. Sem contar os seus gols. Fez o que o Dida deu para ele e segue disparado como o maior goleador da história da Champions League com 66 gols. Para se ter uma ideia, a capa do As, jornal madridista ferrenho do day after, mostra um Raúl, bravo, com Benzema e Kaká de cabeça baixa com a seguinte manchete: ‘Grite mais com eles, Raúl’.

O jogo

Vocês viram melhor do que eu. Eu vi mais perto do que vocês. Um primeiro tempo para se esquecer. Fora um pênalti não marcado em Benzema, nada de futebol das duas partes e um gol achado do Real Madrid depois que Dida largou a bola na frente do único jogador que não desiste nunca do Real.

Já no primeiro tempo Seedorf dava mostras que estava mais no jogo do que todos. Mas no segundo, o veterano holandês mostrou que é o cara. Comandou o jogo, ganhou todas as divididas. E então, na minha frente, sem avisar como no futebol de botão que a bola ia para o gol, Pirlo acertou seu petardo com efeito no cantinho de Casillas que, frio, sem tocar na bola até então e sem se aquecer durante o jogo, aceitou.

Pato virou em mais uma falha de Casillas no lançamento do Ambrosini. O gol do empate do Real é o retrato da bagunça do time do Pelegrini. Ninguém aparecia para bater o escanteio já que Granero havia sido substituído. A torcida começou a vaiar e Raúl, sempre ele, saiu correndo desesperado para cobrar. Rolou para Drenthe, fora da área, bater e empatar.

Quando tudo parecia resolvido, mais uma vez bem na minha frente, Ronaldinho bateu um escanteio (foto com máquina ruim) e Thiago Silva marcou. Gol legítimo, mas anulado. O pau quebrou. Ronaldinho deu um ‘pescozon’ no Raúl. Tiveram que separar os dois. Mas o que era do Milan, não ia não ser do Milan. Numa jogada meio errada de Pato, Ronaldinho passou para Seedorf e puxou a marcação pela esquerda. O holandês, para mim mais o nome do jogo do que o próprio Pato, não cruzou, mas deu um passe para o brasileiro fechar a conta.

Milan e Real Madrid, juntos, somam 16 títulos de Champions League. Lá, da grada baja lateral este, deu para entender melhor o motivo.

Autor: - Categoria(s): Futebol Internacional Tags: , , , , , , ,
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