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29/08/2008 - 12:49

O fechamento olímpico e o obrigado

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De volta a São Paulo depois de intensos 20 e tantos dias (ou seriam anos?) em Pequim. Já li alguns livros de correspondentes de guerra (recomendo Clube do Bangue Bangue) e na volta os jornalistas que vão para estes locais podem ter transtornos com sono, problemas com drogas, alcoolismo e adaptação a velha realidade. Dizem, alguns jamais retornam. Isso se dá devido a tamanha adrenalina a que são submetidos. Terminar um dia vivo ganha uma conotação literal.

Claro que não fui para nenhuma guerra, pelo contrário, fui a uma grande festa do esporte. Mas assim como quando voltei da Copa do Mundo de 2006, você é tomado de um certo vazio. A adrenalina baixa e fica difícil achar graça num jogo de Sul-Americana na quarta-feira à noite. Da mesma forma, tanto faz e não me interessa nem um pouco se Robinho vai para o Chelsea ou fica no Real Madrid.

Mas isso passa logo…. em questão de dias o futebol volta a ser a coisa mais importante entre as não-importantes da vida (não faço idéia quem inventou isso, mas adoro) de qualquer boleiro. E eu sou um deles.

Mas vamos ao que se passou por lá. Como a maioria sabe, fui para cobrir outros esportes. Um desafio para mim. Minha única experiência futebolística em Pequim foi acompanhar o Brasil ser mandado de volta a Xangai pela Argentina ao vivo do Workers Stadium. O jogo vocês viram melhor do que eu e eu me recuso a levar a fama de pé frio com tantos pé murchos num time dirigido por um cara da pá virada.

Cobri tênis de mesa, vôlei de praia, basquete, o atletismo inteiro. Entrevistei judocas, pugilistas, ginastas, técnicos e muito mais. Gente boa, gente competente e também gente que foi passear em Pequim. Mas descobri uma paixão adormecida. O esporte ‘amador’, em especial o atletismo, conseguiu me tirar da mesmice e despertou a paixão por um esporte que eu não julgava mais possível acontecer além do futebol e da fórmula-1, meus esportes preferidos e o basquete e o tênis, que brigam pelo bronze da minha preferência.

Ver uma prova de 100 metros rasos é como assistir seu time numa disputa de pênaltis na Libertadores da América. A emoção desde o momento da apresentação dos atletas é difícil de descrever. Eles ajoelham ao comando do juiz e quase sempre a largada queima. Volta para o alinhamento, ajoelham de novo e BANG!

Você não respira até o final. A final dos 100 metros e dos 200 metros foi algo que entra para a minha galeria de grandes momentos do esporte mundial. Claro que Usain Bolt fez a diferença, batendo os dois recordes mundiais e mudando para a sempre a história da luta do homem contra o relógio. Pode parecer um pouco de dor de cotovelo (e é), mas como eu não tive a oportunidade de ver Phelps nadar, não tenho medo de chamar a Olimpíada de Pequim de a Olimpíada de Usain ‘Thunder’ Bolt, o homem mais rápido do mundo.

Mas nem só de esporte vive um Olimpíada. Vive de muita emoção. Emoção de ver o trabalho dos voluntários, o esforço da China em parecer simpática mesmo com todas as piratarias, malandragens e limitações à liberdade.

Emoção é ver atletas brasileiros que NÃO querem ser tratados como coitadinhos como todo mundo gosta de tratá-los. Muitos sentam nesta desculpinha esfarrapada e explicam assim seus maus resultados.

Outros, como Lucimara Costa, da equipe quarta colocada do revezamento 4 x 100 feminino, uma mulher de fibra e orgulhosa no bom sentido, gosta de ser tratada como atleta de verdade. Quer ser avaliada pelo seu rendimento e se dá ao direito de lamentar muito mais o bronze perdido do que comemorar o feito de estar numa final pela primeira vez.

Outros ainda, como César Cielo, conquistaram tudo sozinhos. A medalha é dele e não do Brasil, como o pessoal que pega carona agora quer dizer. Cielo é um cara autoconfiante, determinado e não vai nunca se conformar com uma limitação mental ou complexo de vira-latas.

Falei com centenas de atletas, brasileiros ou não. Gente da África que adoraria ter as condições brasileiras de trabalho. Gente dos Estados Unidos que rala muito e não está lá apenas por causa de uma estrutura. Europeus, asiáticos, oceânicos. Ser atleta de ponta vai muito além ao que algum índice babaca possa explicar. Estes atletas maravilhosos são diferentes.

O judô, que decepcionou para o Brasil, foi um esporte que me fez vibrar muito ao ver a vitória do lutador do Azerbaijão que levou para seu país a única medalha de ouro olímpica. Sua emoção ao vencer era genuína e inspiradora. Vibrei ao ver o ippon da chinesa aos 40 do segundo tempo contra a japonesa na final da categoria pesado feminina.

Entrei na quadra com a raça com que a Espanha vendeu caro ao Dream Team o título no basquete. E me emocionei também de ver jogadores bilionários como os americanos darem tudo.. TUDO MESMO em nome de buscar esta medalha de volta. Sem contar a simpatia e a humildade de Kobe Bryant, que aproveitou a Olimpíada mais do que qualquer atleta.

Vibrei com vencedores e perdedores. Primeiros e últimos colocados. Muita coisa aconteceu comigo. Muitas vezes um nó apertou tão forte a minha garganta que eu tive que virar de lado ou afastar o telefone da minha boca. Ser chamado de ‘campeão’ ao falar no telefone com o técnico do (este sim sofrido) boxe brasileiro Dórea me transportou para um filme como Touro Indomável ou Rocky.

Mas uma última emoção ainda estava reservada.

Quando eu achava que tinha acabado, que o interminável vôo que entre escalas e esperas levou 40 horas de uma porta a outra seria um martírio final, eis que pego o mesmo avião da seleção feminina dourada de vôlei.

Assim como no momento que entrevistei Maurren após o ouro, vi nas meninas brasileiras o verdadeiro espírito olímpico. Tanto Maurren como o vôlei teriam motivos de sobra para subir no salto e esfregar suas medalhas na cara de quem duvidou, o discurso pronto do esporte brasileiro puxado pelo carro-chefe futebol.

Mas as meninas do vôlei são diferentes. O assunto no avião não era o prêmio em dinheiro (que é menor do que a prata dada ao masculino, diga-se). Não era contrato, não era vingança ou desforra. No avião elas falavam, singelas, da homenagem que receberiam de seu clube, como ‘um jantar numa churrascaria chique’ ou uma jóia do patrocinador. Comentavam o absurdo que é o preço da Primeira Classe do avião (toda a delegação viajou de classe econômica).

Elas queriam saber de abraçar os torcedores no vôo e brincar com os filhos e filhas deles, colocando a medalha no pescoço de quem pedisse. Elas se maquiavam umas as outras na chegada para ‘fazer uma pressão’. Mostravam o resultado orgulhosas.

Quando o comandante do vôo pegou o microfone e pediu que todos olhassem para os lados que dois aviões da Força Aérea Brasileira escoltariam o time olímpico brasileiro até Cumbica, eu finalmente ganhei a minha medalha de ouro.

Enquanto todos e todas corriam para ver os pilotos da FAB fazerem tchauzinho a menos de 5 metros da asa do avião da Air Canada que nos trazia, eu preferi procurar com os olhos o técnico José Roberto Guimarães.

Zé é uma espécie de herói olímpico low profile. Um homem de poucas palavras, de atitudes sérias e de emoções contidas. Passou o vôo todo ao lado de um canadense que não fazia idéia de quem era. Melhor para o Zé, que em seu macbook pro assistia a festa de encerramento que ele em meio a tanta emoção e trabalho deve ter deixado escapar.

Pois quando eu resolvi olhar para o Zé, vi o homem chorando ‘baixinho’. Abaixado, tentando esconder as lágrimas. A emoção singela de ver uma homenagem tão simples para um bicampeão olímpico. Um dos maiores nomes do esporte nacional escondendo-se atrás do cobertor surrado em sua poltrona 23K da classe econômica.

A Zé Roberto Guimarães, assim como a Usain Bolt, Lucimara Costa, Kobe Bryant, César Cielo, Liu Xiang, Pau Gasol, Washington Silva, Rafa Nadal, Elnur Mammadli, Michael Phelps e tantos outros.

Obrigado!

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23 comentários para “O fechamento olímpico e o obrigado”

  1. Paty disse:

    Fernando, vc eh ridiculo. Mauricio, vc eh o cara! Zé Roberto, vc é o deus

  2. Ju disse:

    Obrigado você.

  3. Geraldo disse:

    Este texto de quatro anos não envelheceu. Pelo contrário continua maravilhoso, vide o bicampeonato das meninas e a consagração do Zé Roberto (tri) e do Usain Bolt (bi).
    Parabéns novamente.

Os comentários do texto estão encerrados.

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