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23/05/2003 - 20:03

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Catenaccio e a final da Champions

por Thays Barca*, de Madri

Falta menos de uma semana para a final da Champions League e aqui na Espanha a dor de cotovelo continua. Para os espanhóis a decisão entre Juve e Milán, os dois maiores representantes do catenaccio, é algo totalmente surreal.

A eliminação das equipes espanholas mexeu com o orgulho nacional. A bronca começou quando o Valencia e o Barcelona foram despachados pela Inter e pela Juventus nas quartas de finais. E só ganhou estatus de guerra depois que os galáticos do Real Madrid levaram os três gols no Delle Alpi. A imprensa local foi unânime e dedicou muito mais espaço para xingar os italianos que para analisar o fiasco de seu futebol.

Tá certo que os espanhóis estão meio mordidos porque suas equipes dançaram na Champions, mas uma coisa é certa: não é de hoje que povo detona tudo que envolva o futebol italiano.

Prova disso é que uma das melhores crônicas sobre o catenaccio, uma espécie de ode ao futebol de resultado às avessas, foi publicada pelo El Pais durante a Eurocopa de 2000. Era a semifinal entre a Holanda e a Itália e depois de 120 minutos de tortura a Itália ganhou o jogo nos pênaltis. O texto foi escrito por Santiago Segurola, jornalista espanhol e nesse caso, difícil de ser acusado de parcial. Leia a tradução a seguir:

Para a os italianos, o catenaccio é uma estratégia cuasi geniale. Entretanto, para os admiradores do futebol, dita estratégia consiste basicamente em matar as pessoas de tédio e devastar o jogo com tanta gana que seria de bom grado chamar alguns inspetores do Green Peace ou de qualquer outro grupo atento aos delitos ecológicos.

O curioso no catenaccio é que sua base ideológica é justamente a perversão da moral futebolística, de forma que os adversários sentem-se culpados por, mesmo jogando bem, não conseguir perfurar a defesa italiana. Como a Holanda fez até onde pôde.

Antes de ganhar nos pênaltis os italianos já haviam vencido. Tinham conseguido um 0 a 0. O único resultado pelo qual lutaram durante os 120 minutos de jogo. Entre um time que havia alcançado seu nefasto objetivo e outro que se sentia rejeitado pela misteriosa alma do futebol, não era possível outro resultado que a vitória italiana.

A Itália não chutou a gol durante todo o primeiro tempo. Nem teve a intenção de chutar. Nem com onze jogares, nem com 10. Depois da expulsão de Zambrotta tinham a desculpa perfeita para continuar sua obra cattenacista. A jogada inicial resumia bem quais eram suas intenções. Dão a saída de jogo e logo em seguida Di Biaggio dá um bicudo e manda a bola para lateral. Semelhante grosseria só poderia significar a volta dos italianos à caverna, ao futebol que tanto mal fez ao esporte durante o fim da década de 60 e durante os anos 70.

Os italianos têm sorte de não encontrar muitos adversários que preguem o mesmo princípio causi geniale de jogo. Para que exista o catenaccio é necessário outra equipe que se negue a aceitá-lo. O mais mesquinho do ponto de vista italiano não é sua renúncia à criatividade, ao jogo de ataque, à gloriosa possibilidade de uma derrota por uma tentativa poética. O pior é o seu descaro em atuar como um parasita e aproveitar-se de tudo o que o futebol tem de nobre e que se negam a aplicar.

A Holanda da Eurocopa não é a mesma que deslumbrou o mundo nos anos 70, mas mantém muitos de seus velhos princípios e permite pensar no futebol como um universo feliz. Do outro lado está a Itália, com sua cínica ordem repressiva. A Holanda jogou razoavelmente bem e em alguns momentos, muito bem. Teve paciência e não lhe faltaram oportunidades. Dois pênaltis, uma bola na trave, chegadas constantes à área. Jogou sempre com critério, talvez no limite necessário para derrubar a uma azurra, que graças ao resultado, só terá um objetivo daqui para frente: mergulhar ainda mais fundo em seu principio cuasi geniale.
E o futebol que se dane.

* Thays Barca é jornalista e vive a angústia de morar em Madri e torcer loucamente pelo Barcelona

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